Sem tempo para sofrer

As pessoas vivenciam seus lutos e perdas como se fossem doenças, como se as dores e sofrimentos não fizessem parte da condição humana. Não querem, não se permitem entristecer-se, angustiar-se. Preferem se identificar ou procuram quem as identifiquem como doentes, tomando remédios que amenizem ou retirem completamente qualquer tipo de incômodo, como se todo incômodo fosse algo negativo, abandonando seus próprios recursos internos em prol de soluções imediatas e vindas do exterior.

Por outro lado, a correria do mundo globalizado busca a perfeição, não prioriza a qualidade de vida e das relações, o que pode ocasionar um grande isolamento e senso de competição. Tudo isso gera um desgaste muito grande.

Não há tempo para sofrer nossas perdas, reconhecer nossos medos, chorar nossas tristezas. Ignoramos tanto o que nosso corpo e mente demonstram que nos tornamos mais vulneráveis ao adoecimento emocional e físico. 

(Publicado como parte do artigo "Parece, mas não é" (Janete Trevisan) na Revista Metrópole 2010)