Psicologia e trânsito

Existe um ramo da Psicologia que trabalha com as avaliações de motoristas para tirarem sua habilitação. Acho que todo mundo que dirige se lembra do famoso exame psicotécnico e para a surpresa de muitos, eles dizem muito sobre as características necessárias para tirar a habilitação, tais como a atenção, concentração, memória, impulsividade, agressividade e capacidade de raciocínio.

Porém, hoje quero falar sobre o trânsito de uma outra forma, não a da avaliação pré habilitação, mas a da observação em campo. Também sou motorista e ultimamente tenho pensando muito sobre isso e percebido na prática o quanto de nós, nós colocamos ao dirigir: nossas características de personalidade, nosso estado de espírito, nossos valores e crenças e o nível de cidadania que atingimos. Vemos campanhas para não beber antes de dirigir, não trafegar em alta velocidade, respeitar as placas de trânsito.

E isso tudo é muito importante, pois o trânsito mata mais que a criminalidade nas grandes cidades, são acidentes, atropelamentos, rachas, etc. Um tempo atrás tive que renovar minha habilitação e sendo do "tempo das antigas", estudei o tal livrinho novamente, puxa gostei! Reaprendi muita coisa que não lembrava, como por exemplo, veículos grandes precisam tomar cuidado com os menores (não é o que vemos com nossos ônibus e caminhões).

Além disso tudo, quero refletir também em como nossa personalidade é revelada através dos nossos atos no trânsito. Já se deparou com aqueles motoristas que fazem fila dupla e que ao invés de entrarem na fila acabam forçando a passagem na frente de todos? Percebo o quanto esses motoristas se acham especiais, não podendo sequer aguardar sua vez. Isso revela imediatismo, impulsividade, falta de cidadania e principalmente uma pitada de egoísmo de uma personalidade possivelmente narcisista.

E aqueles que estão correndo muito mais do que o permitido e se você está no caminho, na esquerda ou na direita, leva sinal de luz constante, sendo quase empurrado para sair da frente. Isso quando não encontram um jeito de ultrapassar rapidamente, mesmo que coloquem em risco a própria vida e a de outros que estão no mesmo local? Nesse caso, percebo o imediatismo, o egoísmo, a impulsividade, mas sobretudo um impulso de morte, um desejo de se arriscar que pode até significar um desejo suicída inconsciente.

E finalmente, quem estando na esquerda, ou seja, faixa de tráfego mais rápido não teve que aguardar um motorista lento, muito abaixo do permitido, sair do caminho, porque ele simplesmente não dá passagem ou não acelera? Aí o motorista que está com pressa fica atrás dele, mostrando sua necessidade e com uma sensação de impotência, aguarda que motorista da frente olhe no retrovisor, no velocímetro e dê passagemou perde a paciência e cai na tentação da ultrapassagem pela direita.

Nesse caso, o argumento é que não se deve correr e os que querem correr causam acidentes, contudo por trás desse argumento socialmente aceito existe um certo egoísmo com as necessidade do outro e talvez um toque de tortura, mas sem dúvida nenhuma o destaque é a necessidade de controle, controlo o outro não saindo da frente.

No consultório sempre há pacientes que se queixam muito do trânsito e do nervosismo que enfrentam, é claro, que trabalhamos em como não deixar que essas situações nos abalem, porém a ideia não é fingir que não vemos o que acontece, isso seria desvalorizar nossa percepção.

Apesar de uma percepção correta, podemos controlar nossas emoções e quem sabe refletir sobre nosso próprio comportamento, não nos deixando contaminar por essa “loucura”.

Lembram do desenho do Pateta no trânsito (Sr. Walker versus Sr. Wheller)? É uma animação da Walt Disney lançado em 1950, mas retrata muito bem ainda hoje o que ocorre com nossa personalidade depois que entramos no nosso carro.

Psicologia e Trânsito são uma bela dupla! E você? Que parte da sua personalidade tem demonstrado no trânsito?

Invista em você!