Quando o muito ainda é pouco!

Esses dias ouvindo uma canção parei para pensar na letra. Como muitas canções a letra falava de amor, amor romântico e aquela velha situação de quando temos tudo ao nosso lado e não enxergamos. 

 

“Quando muito ainda é pouco

Você quer infantil e louco

Um sol acima do sol

Mas quando sempre

É sempre nunca

Quando ao lado ainda

É muito mais longe

Que qualquer lugar” (Chico Amaral/Samuel Rosa)

 

Ao ouvir a canção mais de uma vez me vieram alguns pensamentos relacionados à vida de modo geral, sobre como fazemos isso na vida o tempo todo. No amor, isso é cantado por multidões que choram por terem sido trocados por outro alguém ou terem se arrependido de fazerem essa troca; no trabalho através da nossa ambição numa cultura do sempre ser e ter mais; na saúde é a causa de muitos sintomas de estresse e outras desordens mentais e emocionais; o que temos pode ser muito, mas não para nós.

O ser humano independente de lugar, tempo e geração é um ser insatisfeito ou como Freud muito repetiu em seus artigos, o ser da falta. Desde que nascemos estamos em busca de algo que nos falta. Podemos ter várias interpretações disso e todas com muito sentido. 

Quando bebês buscamos incessantemente o seio materno com seu leite morno que nos “alimenta” do que nos “falta”, pois não temos essa capacidade por nossa quase que total dependência. Quando crianças buscamos o olhar dos nossos pais para agradar, desagradar, internalizar as regras que nos são impostas e construir nosso olhar de nós mesmos, vivendo uma ambivalência entre nossa ainda presente dependência já insuficiente diante da nossa capacidade futura de autonomia. Quando adolescentes buscamos questionar tudo que recebemos, aprendemos e observamos, insatisfeitos em busca de uma identidade própria, não podemos nos contentar com o mundo dos nossos pais, precisamos construir o nosso. Quando adultos percebemos que sempre estaremos em busca de mais, que a condição de satisfação total significa morte, morte literal ou morte em vida, que nos paralisa. E ao final da vida, podemos olhar para trás para, enfim, percebermos o quão satisfeitos fomos em nossa vida ou o quão insatisfeitos e sem tempo chegamos ao derradeiro momento, no qual não poderemos mais mudar quase nada.

Qual o problema com esse caminho? Nenhum, todos passamos por ele. A questão é como o vivemos. Se apesar de ser perfeitamente esperado que nossa insatisfação nos empurre pra frente, podemos viver apenas sempre na busca e nunca no gozo, e aí essa insatisfação nos gera sofrimento, um sofrimento inútil. 

Por vezes temos a família que sonhamos ou um parceiro a quem amamos, admiramos e nos sentimos bem, mas buscamos a novidade, a adrenalina, a diferença. Por vezes temos um trabalho do qual gostamos, que nos dá prazer e ainda o fazemos com excelência, mas não estamos indo no caminho que todos esperam, não ganhamos o que o outro ganha ou não temos o mesmo reconhecimento. Por vezes temos um corpo perfeito (não esteticamente falando) e saudável, somos jovens e joviais ou mesmo belos, mas nossa idade, nosso corpo, nosso rosto não corresponde aos padrões, nossos e de outros, não aceitamos o tempo passar e sempre estamos insatisfeitos com nossa aparência, buscando o ideal, buscando ser mais novos, mais atraentes e mais saudáveis, enquanto o tempo e sua marca não param e nos impõe a realidade das nossas possibilidades.

Se isso for olhado como um direito que temos de melhorar sempre, ok. A questão é que nessa cultura da insatisfação nunca chegaremos lá, porque além de não ser possível por nossa falta intrínseca (lembra do Freud?), não é saudável e nem traz a felicidade que tanto almejamos.

Olhe para você com toda a sinceridade do mundo, do seu mundo, e se pergunte; - Eu estou satisfeito com o que tenho? Com o que construí? Se sim, não se acomode ou paralise, porém curta, se permita gozar do que construiu! Se a resposta for não, se pergunte se essa insatisfação tem a ver com o que você quer ou com as expectativas dos outros, as cobranças de um mundo que caminha mais e mais para o imediatismo e a ilusão da perfeição? 

Pode ser que tenhamos muito e ainda é pouco, mas pouco para quem?

Pense nisto!